A mochila preta - p10

    Era início da tarde quando acordou com uma leve dor de cabeça. Virou-se de barriga para cima e ficou olhando para a lâmpada apagada. Ficou ali por alguns bons minutos, naquela posição, até finalmente se levantar, abrir a janela do quarto e ir tomar seu café da manhã.
    Ela estava mentalmente cansada naquele dia, mas, mesmo assim, decidiu organizar o quarto. Tirou a mochila da cama, dobrou os cobertores e esticou o lençol, já imaginando que passaria o dia inteiro ali. Afofou os travesseiros e os colocou alinhados na cabeceira.
    Tropeçou algumas vezes nos calçados espalhados pelo chão e começou a murmurar sobre ter deixado tudo chegar àquele ponto. Sempre deixava para depois, sempre havia algo mais importante, mais urgente, e o quarto podia esperar. Mas acumulou. Era tamanho o caos que, para organizar, era preciso retirar tudo do lugar: as roupas que estavam na escrivaninha, jogou sobre a cama para dobrar depois; as maquiagens e os perfumes, colocou tudo na mesa da cozinha.
     Seus pensamentos involuntários começaram a aumentar, a mente voltou a ferver. O cansaço mental se unia ao físico. Ela respirava fundo para conter, mas aquela bagunça parecia gritar que ela havia falhado consigo mesma.
– Não era você que tinha tudo sobre controle? Cadê?
    A dor de cabeça latejava. Seu corpo tremia. Os olhos começaram a lacrimejar. E foi quando ela desabou: colocou o rosto contra o travesseiro, o mesmo que acabara de arrumar, e descarregou.
     Não somente chorou. Foram gritos abafados, soluços, raiva, estresse contidos. Ela apertava o travesseiro como se ele pudesse suportar toda a sobrecarga que ela guardava. Sempre se mostrava confiante para todos, a pessoa que não causava nenhum problema, que resolvia tudo. Mas tinha medo de decepcionar, de se mostrar vulnerável. Olhar para si mesma depois de tanto tempo foi a gota d'água que faltava para transbordar, mas que também lavou muita coisa.
     Quando tudo se acalmou, ela deitou novamente, de barriga para cima, os olhos inchados, o rosto vermelho. Ficou olhando para a lâmpada, agora acessa, enquanto sentia o vento suave entrar pela janela. Ficou ali por alguns minutos, respirando, até se levantar e ir ao banheiro. Ligou o chuveiro e deixou a água molhar seu corpo inteiro, sem pensar em nada.

Parte 10 - descarga
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Matheus H. 

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