A casa branca - p02

    Lavou o rosto, forçou um sorriso para o espelho e finalmente saiu do quarto. Antes de chegar à escada que levava à parte inferior da casa, sentiu o cheiro do seu chá-mate de todas as manhãs nubladas, sempre preparado na quantidade e temperatura certas, sempre acompanhado de torradas e geleia de frutas vermelhas, tudo feito de forma harmônica e sempre bem apresentável. Desceu e foi em direção ao seu café da manhã, agradeceu à chef e seguiu para a sala assistir ao noticiário.
    Era sua rotina diária, mas naquele dia, cansado de ouvir sobre tragédias, corrupção e como estava tudo um caos no mundo, tomou o controle e desligou a TV. Levantou-se, deixando o chá e as torradas a terminar e então dirigiu-se para a parte superior da casa.
    Entrando em seu escritório, pôs-se a tentar continuar a escrever a história que havia começado há anos e mesmo assim não terminara. Parado diante da tela do computador, lia e relia cada linha de cada capítulo. Horas se passavam. Pesquisas e mais pesquisas eram feitas para, quem sabe, encontrar algo que lhe desse base para como escreveria aquele último capítulo. Porém de nada parecia adiantar. Nenhuma nova letra sequer era acrescentada na história, e o rodapé do documento confirmava isso: datando a última alteração há cerca de três anos atrás.
    No silêncio do escritório, por horas escutando os sons das teclas, do mouse, da ventoinha do computador, ensurdecia mais do que qualquer outro som que pudesse estar ligado. S
eus olhos já cansados e vermelhos começavam a lacrimejar, como se implorassem para sair dali. Bem diferente do lado de fora, onde a chuva já não estava mais a cair e a terra molhada exalava seu cheiro e frescor. A vida acontecia ali no jardim de sua casa: pássaros bebiam água da fonte central, rodeada de bancos e flores. Tudo muito bem cuidado e tratado pelo jardineiro, aliás, toda a casa era impecavelmente mantida pelos empregados, e todos que passavam pela rua admiravam, às vezes até parando para observar.
    Mais uma vez vencido pelo cansaço, ele larga o escritório cabisbaixo. Frustrado, entrou no quarto, deitou-se em sua cama e fica olhando para o teto, buscando algum tipo de salvação que nem ele mesmo sabia como pedir. Antes, suas histórias fluíam como um rio, era fácil criar. Mas não agora e isso o consumia justamente por ser a história que ele mais se empolgou em fazer. Era um rio que agora havia secado e ele não entendia como a vida dele se resumiu a sonhar e não realizar.
    A noite chegara mais uma vez, trazendo sua escuridão e melancolia.


Parte 2 - o rio que secou
Matheus H.

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