A casa branca - p08

    Acordou cedo, antes do nascer do sol. Sentou-se na lateral da cama, e ficou encarando o chão. Seu semblante se assemelhava a uma pessoa exausta, prestes a colapsar, apesar de ter dormido bem e ter tido uma conversa leve e agradável na noite anterior. Na sua cabeça, ele precisava encontrar alguma coisa que o inspirasse a terminar a história que estava escrevendo mas, ele em todo esse tempo, ainda não havia encontrado nada que o fizesse completar aquela que ele já considerava a maldita história.
    Num rápido movimento, levantou-se e foi até a varanda observar as ondas do mar e sentir a leve brisa que trazia com ela. O som da ondas se quebrando na praia tranquilizava um pouco sua mente.
– Eu sei que você resolveu me esperar para o café da manhã. – A amiga brincou quando o viu em pé.
– Só não queria que tu pensasse que eu te roubei. – Brincou também
    Após o café, sentaram-se na orla da praia, observando o mar novamente. Ele, calado, refletia um pouco, até que ela interveio:
– Você está com um olhar perdido. Ainda está preso nessa situação? 
– Eu nem sei mais o que estou procurando ou o que estou esperando. Eu tô indo, sabe… mas não sei para onde.
– Ela era sua inspiração, eu sei. E perdê-la minou isso. – Ela desviou o olhar para umas crianças brincando de fazer castelo de areia – Você construiu uma fortaleza impenetrável e perfeita. Tudo é rigidamente rotineiro e organizado. 
– Eu preciso ter tudo sobre controle…
– Mas o que tem adiantado? – Ela o interrompeu – Você nem sabe qual é a cor da grama de sua própria casa. Você nem tem vivido sua própria casa. Tenho certeza de que você nem abre aquelas janelas.
    Ele fechou os olhos e começou a lacrimejar. Ela tinha razão, e ele sabia. Sabia que não deveria ficar preso a alguém que já não estava ali para vê-lo viver. Sabia que o problema era que toda a sua vida havia sido planejada para ser vivida com ela: desde a casa enorme construída para dar o maior conforto a sua mulher e filhos que ela esperava, até a história que ele estava escrevendo, e que, por isso mesmo, não conseguia mais terminar. 
– Você quer me fazer chorar, né?
– Claro que não! – Disse ela, risonha – Quero que você veja que o mundo ainda tem cor, e que sua vida não precisa acabar por algo que nem foi culpa sua. Faça alguma coisa por você mesmo.
    Ficaram conversando por mais algumas horas, almoçaram no hotel e fizeram checkout depois disso. Abraçaram-se novamente e cada um entrou em seu carro. Mas, apesar de despedirem-se naquele momento, seguiram buzinando e ultrapassando um ao outro ao longo da rodovia de volta para à cidade deles, até que cada um seguiu rumo seu destino.
    Ao virar a última rua que dava acesso à sua casa, ele pôde ver a imponência daquela enorme casa branca tomando toda a via. Ele mesmo olhou admirado, contemplando o jardim, a estufa, o cavalo, a fonte e o bosque que havia ao fundo. 
– Quanto tempo eu perdi?

Parte 8 - rachadura perfeita
Matheus H.

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