A mochila preta - p01

    Parou na porta do apartamento e olhou para dentro, se perguntando se não havia esquecido algo, algo que fosse precisar. Com uma dúvida cruel, decidiu revisar mais uma vez sua mochila antes de sair para o show da sua banda favorita.
– …carteira, vou pôr o ingresso aqui dentro… maquiagem… Acho que está tudo aqui mesmo. – Já era a terceira vez que revisava. – Cadê as chaves? Onde eu botei…? Ah, na minha mão.
    Finalmente apagou as luzes e saiu, preferindo descer as escada ao elevador. Ao c
hegar na garagem, no subsolo, seguiu até o carro. No silêncio do estacionamento, era possível ouvir seus passos, o barulho do zíper batendo na mochila e os objetos que ela carregava. Mesmo seguindo em linha reta até seu carro, seu olhar averiguava cada canto daquele lugar, sempre com o pensamento de "E se houvesse alguém ali?" Não havia ninguém.
    Entrou no carro, mochila no banco da frente, suspirou e seguiu até a portaria. Abaixou o vidro, e com um sorriso de canto de boca quase forçado, acenou para o porteiro, que somente assentiu e abriu o portão.
    Apesar de morar numa cidade relativamente grande, poucos eventos e shows aconteciam ali, e aquele não era um deles. Antes de pegar a rodovia e seguir viagem, passou numa loja de conveniência de um posto perto de casa. Decidiu comprar algumas coisas para comer, caso faltasse, abastecer o veículo e calibrar o pneu também, mesmo nada disso sendo realmente necessário.
    Feito tudo isso, pegou o celular, revisou o endereço, marcou a rota no mapa, e seguiu até a rodovia principal.
    "Rodovia interditada."
    Esse aviso era o seu maior inimigo naquele momento. A rodovia da costa oeste era a mais utilizada, melhor sinalizada e mais larga. Algumas viaturas policiais e ambulâncias estavam no local devido a um acidente causado numa perseguição. Agora, ela teria de seguir pela rodovia que cortava a floresta: estreita, muito sinuosa e com túneis extensos. Os dedos começaram a bater involuntariamente contra o volante, a tensão se tornava visível.
         Seu olhar recaía constantemente sobre a tela do celular, como se esperasse que uma solução surgisse magicamente na tela. Apertou o volante com força e pegou o desvio pelo centro até chegar a rodovia alternativa. Era um via de pouco movimento em seus dias normais, mas, devido ao contratempo, estava movimentada.
    Por ser uma pista em que ainda não havia dirigido, seus dedos batiam ainda mais freneticamente no volante, e seus olhos estavam ainda mais atentos a tudo ao redor. Forçou-se a focar: colocou uma música no som e começou a cantar junto, tentando aliviar a própria tensão.
    Funcionou por um momento, até a chuva, que estava ameaçando cair desde cedo, caiu.

Parte 1 - caminho sinuoso
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Matheus H.

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