A mochila preta - p05

    "Pôr o cinto… e na mochila também. Uma mão no volante, outra na marcha. Um pé na embreagem, outro no acelerador."
    Ela se preparava para sair da garagem do condomínio como se fosse participar de uma corrida. Agitada e narrando mentalmente tudo o que estava fazendo. Saiu da vaga um pouco acima da velocidade permitida dentro do condomínio, mas não podia se dar ao luxo de possivelmente se atrasar. Sua intensa autocobrança fazia com que acreditasse que todos a criticariam por qualquer falha que ela cometesse, como se o mundo inteiro estivesse sempre observando. Ela sentia isso, e por isso tinha que ser assim.
    Na portaria, acenou para o porteiro novamente, que apenas assentiu e abriu o portão. Era de manhã, cedo ainda. As ruas estavam praticamente vazias de pessoas e carros. Se não estivesse tão focada em chegar até a metrópole, teria percebido que o vento carregava flores amarelas junto a folhas verdes colorindo o chão perto do parque central, ou um cachorro saindo feliz do carro para brincar com o tutor. Mas ela apenas seguia seu rumo, cortando a cidade até alcançar a rodovia da costa oeste. Estava tão imersa nos próprios pensamentos que sequer ouvia os sons ao redor dela.
    Como previsto, chegara ao local com uma hora de antecedência. Mas, para o seu azar, não fora a única a pensar em chegar cedo, o estacionamento do estava lotado. Ela começou a apertar o volante, chacoalhar as pernas e, num gesto de fuga, olhou para a mochila em busca do chocolate que havia comprando justamente para isso: acalmá-la. Revirou toda a mochila, que já estava bagunçada, mas não encontrou. Não estava conseguindo se concentrar nem nisso mais.
    Largou o carro na rua e entrou numa conveniência na esquina. Comprou outro chocolate, comeu e fechou os olhos para sentir o sabor. Funcionou. Sua mente tranquilizou. Voltou para o carro a procura de um estacionamento próximo.
    Ela conseguiu revisar algumas coisas antes de ir ao concurso, mas ficou nervosa por não poder levar a mochila com ela até a sala, levando consigo só o chocolate. Ficou lá por horas, sem ter comido nada além do doce, batendo a caneta na mesa, coçando a palma da mão, relendo várias vezes a mesma linha, mordendo a ponta da caneta. Apesar de toda tensão e estresse, finalizou a prova antes de qualquer outro, mas teve que esperar a liberação.
    Quando finalmente saiu, o nervosismo deu lugar à fome. Fome que ela nem estava sentindo até então. 


Parte 5 - alta tensão
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Matheus H.

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